Vocês me desculpem. Sei que estou um pouco atrasado para tocar no assunto, ou não? Mas, de qualquer jeito tenho de falar, está atravessado na garganta há mais de uma semana e não dá para engolir. Estou falando da imbecilidade, da campanha de pobreza mental desencadeada pela Rede Globo com o noticiário do nascimento da filha da Xuxa. Nunca em minha vida me senti tão humilhado, tão envergonhado de ser brasileiro. Aquilo devia ser proibido, aquilo foi uma afronta, uma provocação a quem tem vergonha na cara.

Estou na academia fazendo ginástica, no melhor astral, a TV na minha frente e aí a Rede Globo faz o Brasil parecer um país de debilóides, de alienados, colocando no ar aquelas imagens e aquelas manjadas entrevistas recheadas de babaquice. Meu Deus do céu, como é que um cara pode ser tão paspalhão como aquele namorado da Xuxa. Gente, o homem não se manca do papel ridículo que está fazendo. Também com aquela cara de bobão, parece mesmo que a Xuxa gerou a filha sem precisar dele. Estou revoltado, principalmente porque tem tanta gente neste país que se babou vendo a mediocridade global. Mas, felizmente e para a gente saber que o brasileiro já não é mais aquele alienado que a Globo imagina, as críticas, principalmente na imprensa escrita, foram imediatas e bateram forte, mostrando qual é a do Dr. Roberto Marinho e seu império do conto de fadas e do faz-de-conta.

Pronto, falei o que precisava falar. Cumpri minha missão de formador de opinião. Será?? Ainda a propósito da Globo, fico pensando como são propositalmente alienantes aquelas suas novelas do horário nobre. Confesso a vocês que até assisto um pouco, mesmo para poder criticar. Entretanto, sou obrigado a conhecer e elogiar a emissora pelas séries brasileiras que apresenta naquele horário, já mais tarde da noite. Geralmente são obras clássicas da literatura brasileira que vale a pena ver. Enfim, nada é perfeito e até a Globo tem suas coisas boas.

Um abraço e até a próxima.

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O inesquecível Cine Metrópole de Belo Horizonte. Lá, na rua Goiás esquina de Bahia. Não dá para esquecer. A fachada externa em mármore negro. A sala de espera e sua chique bomboniére, lá no canto. As pesadas cortinas de veludo vermelho.

Afundado na maciez da poltrona revestida em couro, o encosto era recheado em losangos, a gente aguardava o prefixo musical que marcava o início da sessão. Não sei bem se me lembro de qual era a música do prefixo (isto mesmo, prefixo), mas algo me diz que era Love Letters. Ou seria Star Dust?

E o jogo de luz? Nas luminosas e coloridas colunas das paredes e no grande lustre do teto, todo quadriculado, as cores iam se alternando, do azul ao verde, ao vermelho, enquanto a música fazia o fundo. Logo, a espessa cortina que escondia a tela, começaria a se abrir lentamente. E as luzes e a música, faziam a gente sair deste mundo, escapar da realidade.

Quantas vezes vivi estas sensações. Era um belo cinema, tinha classe, muita classe, o inesquecível Metrópole. Grandes filmes lá vivemos e para quem curte um cinema, igual eu, era um prazer renovado ir ao Metrópole. Acabou, como todos os cinemas de luxo acabaram e ficou apenas na lembrança. Das últimas recordações que guardo dele foi exatamente a da minha formatura em Direito. A crônica, como podem ver, é mais uma nostalgia de tempos e lugares que passaram em nossa vida. Pois é, é nisto que dá ficar vendo velhas fotos… Mas continua sendo melhor, muito melhor, recordar, do que ver o novo capítulo, mais um, na história da desonestidade e sem-vergonhice no Brasil: agora, a tal máfia dos precatórios. Para variar, tem político no meio da bandalheira. E garanto que é gente que nunca entraria no Metrópole, nunca.

Um abraço e até a próxima.

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Há muito tempo venho ensaiando escrever sobre coisas típicas de Itabira. Não sei não, mas acho que algumas manias e tipos somente poderiam ter ocorrido aqui, neste contexto itabirano/drummondiano. Perdoem-me curtir um pouco o assunto, voltar no tempo para lembrar de figuras que quase todos da minha geração conheceram. Lá, bem longe, a figura de Barateiro, o terror dos policiais. Getúlio Bigodudo, Caetano Pontaria, Roque, Sá Delê, Mané Gato, estes mais recentes. E como esquecer de Paulo Jacaré, que acabou dando apelido a todos os Paulos que conheci. Bastava se chamar Paulo, para ser Jacaré.

E os apelidos que surgiam, ninguém sabe como. É só lembrar quantos Joãos tinham e têm apelido. João Gambá, João Baleia, João Piolho, João Seta, João Fubá, João Guanabara, João Turita e por aí afora. Mas há apelidos que surgiram de maneira gozadíssima. Chegou à cidade um cidadão que mancava de uma perna, foi logo levando o apelido: Deixa que eu chuto. E outro caso, ainda, cujos personagens são conhecidos e nossos amigos, cuja semelhança física determinou o apelido de um deles tirado da semelhança mesmo, Dupli, de duplicata.

E a cidade continuou inventando seus personagens. Quem se lembra do Bandido da Luz Vermelha, o americano Caryl Chessman, dos idos de 1960, condenado a morrer na cadeira elétrica? Morreu, mas não morreu, pois aqui ficou um sósia seu, um Paulo que não foi Jacaré, mas virou Caryl Chesman. Era garçom, na época, do Lunik e Zé Mário e quando a gente pedia uma cerveja, das muitas que lá tomamos, era só gritar: Ô Chesman, solta uma brahma.

E o Zé Picolé, grande gozador, quase um artista, da família que virou Picolé, Dão Picolé, seu irmão, grande professor de inglês e seus pais, Antônio Picolé e Maria Picolé. E tinha mais, gente, João Passarinho, Joaquim Caminhão, João Padeiro. Dizem que João Passarinho ganhou o apelido porque cismou que podia voar e se estatelou com asa e tudo, pulando do Pico do Amor.

Coisas e loisas de todo lugar, de toda cidade, que todas têm suas manias e costumes bizarros. Pessoas e lugares, em todo o mundo se tornam extremamente interessantes quando nos damos um tempo para senti-los. E fico por aqui, caro Marcos Evangelista, que é, na verdade, Gabiroba, que tem um irmão que jogava no Valério, também Gabiroba, para provar que não falei mentira.

E é isto aí, um abraço e até a próxima.

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É, minha gente, a música brasileira nunca desceu a níveis tão baixos, como agora. Tirando fora, é claro, aqueles nossos artistas que seguram a barra, que continuam fazendo música de qualidade… o resto é uma lástima, é mesmo o resto. Aí impera a mediocridade em seu grau mais elevado, chega-se às raias da boçalidade. As letras das tais “músicas”, entre aspas, são de uma pobreza, não, pobreza é pouco. São de uma estupidez de anta, parecem feitas por analfabetos para outros tantos analfabetos cantarem. Quem é que aguenta “quer dançar, quer dançar, o tigrão vai ensinar”, “tá dominado, tá tudo dominado”, “dói, um tapinha não dói, dói”. Definitivamente, não dá. E as popozudas e as preparadas? É tudo tão ruim que a gente fica pensando se tem jeito de piorar.

Aí eu fico vendo os jovens engolindo essa submúsica goela abaixo e parece que estão achando ótimo. Claro que não percebem que estão correndo o risco de se tornarem debilóides, já que a música é idiotizante. Nestas horas é que sinto saudades do rock, do velho e honesto rock americano, super importado da poderosa matriz do norte. Mil vezes melhor. Sempre fui contra a censura, mas acho que uma censurazinha até que não seria mau neste caso. Ó, meu, isto não passa não, isto não é música, se quiser entra com mandado de segurança, ô tigrão.

No carnaval, subo e desço as ladeiras de Olinda atrás dos blocos. Lá longe, o mar deve estar pensando que loucura é esta que tomou conta desta gente. O frevo acelera o corpo e arrasta a multidão compacta, que espremida e suada nas ruas estreitas de Olinda, canta e bebe, varando o dia, a noite e a madrugada, sem parar. As igrejas fechadas, antigas e graves, olham tudo lá de cima e aguardam a chegada da quaresma, com um disfarçado desejo de vingança. Recuerdos do carnaval.

Um abraço e até a próxima.