Uma estória. Quarta-feira última, lá pelas tantas do jogo do Cruzeiro com Palmeiras, na entrada da área, a bola sobra no pé de Palhinha. O atacante celeste se vira, coloca-se de frente para o gol, vê o goleiro Veloso adiantado e tenta a jogada de craque: enfia o pé debaixo da bola, de leve e dá o toque que a mandaria por cima do goleiro, para morrer, mansa, mansa, no fundo da rede. Só que é também o momento de glória do Veloso, que estava realmente adiantado. E lá vem a bola, descrevendo sua trajetória fatal, irreversível, uma parábola (ou seria uma elipse?) que a faria passar acima das mãos de Veloso, morrendo no barbante.

Veloso, todo no ar, num esforço quase inimaginável, num último arranco, estende o braço, de mão trocada e faz a defesa impossível, corta a trajetória da bola e desvia por cima da trave. Na linguagem dos cronistas esportivos, uma pintura de lance. Palhinha se ajoelha, leva as mãos à cabeça e diz: não acredito! O estádio vem abaixo, uma apoteose para a beleza da jogada.

Trinta e oito minutos do segundo tempo, placar igual, 1×1, o jogo estava em sua fase crítica, iria para os pênaltis. Roberto Gaúcho lança uma bola alta sobre a área, meio centrada, meio chutada a gol. Bola fácil para quem já tinha salvado outra quase impossível. Veloso vai, no alto, toca a bola com as duas mãos mas não consegue segurá-la. Ela cai de presente nos pés de Marcelo, que mata o Palmeiras. Vida ingrata a de goleiro, da glória ao fracasso é, realmente, coisa de um pulo.

Outra estória. Disse meu irmão Spencer e eu passo: Casarão! Casarão! Loucura: uma fogueira de São João. E lá se foi o Sobrado do Batistinha, de onde, há muitos e muitos anos, uma garrafa despencou de sua sacada e quase pegou na cabeça de minha mãe. Assim me contou ela, assustada, já chegando em casa. Lembrança minha, apenas circunstancial. Entretanto, lembranças densas dos velhos itabiranos subiram ao céu, com a fumaça que marcou a tarde azul do domingo. Acredito que toda casa tem sua alma e era possível ver a alma do Sobrado do Batistinha pairando, enquanto o velho casarão era consumido pelo fogo. Ardeu o sobrado, lá estão as cinzas, cinzas. E a cidade vai perdendo a sua memória…

Crônica de julho de 1996