Vivemos tempos estranhos, sem dúvida. Cada vez me convenço mais disto. De repente, se damos uma parada para pensar e avaliar, podemos sentir o emaranhado de situações que nos são atiradas no dia a dia. A tendência é ir aceitando tais situações, quase sem pensar, até porque nem temos tempo de pensar, isto é, não nos deixam pensar, não convém pensar. O povo não pode pensar: Vamos lhe encher a cabeça de um punhado de bobagens para que ninguém pense nas coisas graves que estão acontecendo. Assim agem os donos do poder.

Foi aí que comecei a escutar aquela música que vinha de bem distante. Longe, apenas um murmúrio, confundia-se com o ruído do vento, misturava-se com a fala silenciosa das coisas. Para ouvi-la, foi necessário um verdadeiro exercício de separar sons, o que seria fácil, não fosse o meu espanto naquele momento. Enfim, depois de muito esforço e concentração, consegui separá-la das outras coisas e pude ouvi-la perfeitamente.

Era composta de sons que eu nunca ouvira antes, estranhos, combinações melódicas extraordinárias e inusitadas, não parecia, realmente, música deste mundo, jamais ouvira nada igual. Cheguei a duvidar de que estava realmente ouvindo aquilo, de tão estranha que era a melodia. Mas ela era real e se tornava cada vez mais intensa e mais próxima, mais presente. Aquilo que a princípio me incomodava, de tão enigmático, pouco a pouco foi se tornando numa sensação agradável transmitindo completa tranquilidade e paz.

Não sei se se passaram minutos ou horas, enquanto durava o concerto, porque era, realmente, um espetáculo para um só espectador. Junto com a melodia, a partir de certo momento, vieram as cores que variavam com os sons, tudo numa harmonia impecável. Finalmente, em meio àquela maravilha, comecei a identificar alguns sons conhecidos, vozes familiares, esganiçadas e histéricas, passaram a ocupar o primeiro plano e foi aí que eu dei pela coisa. O que eu acabara de ouvir era, nem mais, nem menos, o som e imagem da sessão do Senado Federal que acabara de sepultar a CPI dos Bancos!! Foi assim que o Ângelo Calmon de Sá e os Magalhães Pinto receberam a mensagem telepática da morte da CPI. Este é o Brasil esotérico que o povo não pode entender.

Tapinhas no ombro e até a próxima