O sol da tarde era uma esfera brilhante que incendiava a paisagem de primavera. O ar era quente e a cidade se movimentava na rotina de mais um fim de semana que começava. Agitado vibrante. As pessoas, nas ruas, tinham pressa de encerrar as suas tarefas, para entrar no fim de semana o mais rápido possível. Nada disto, entretanto, penetrava naquela casa da esquina, que se mantinha silenciosa e quieta, em meio à densa vegetação que a rodeava. Lá dentro, figuras, sombras apenas delineadas, se deslocavam lentamente, num contraste quase absurdo com a loucura das ruas.

Naquele mesmo momento, no outro lado do mundo, a longa mão da violência tirava mais uma vida. Baleado, morria Yitzhak Rabin, primeiro-ministro e homem forte de Israel. O homem que teve a coragem de fazer a paz com os palestinos, os mais ferozes inimigos dos judeus. Pagou com a vida pela sua ousadia e foi morto pela mão de um judeu, ironia do destino, de um desvairado extremista de seu próprio povo. Mais um sacrificado pela causa da paz, entre tantos outros que já se foram. Por estas e por outras é que fico pensando que o que eles querem mesmo é a guerra. Sempre a guerra, eterna insensatez da humanidade. Com certeza a terão.

Mas Israel está tão longe, que, para nós, não importaria muito o que lá se passa, poderiam pensar vocês. Não é bem assim. Neste caso, pouco importa a distância, pouco importa que seja em Israel ou nas Ilhas Fiji, mas importa e muito lembrar que a violência tem de ser combatida em todas as suas formas, seja onde for. Atos como este, no mínimo, trazem em si o malefício do retrocesso e o germe da vingança.

O mundo deveria estar dentro daquela casa da esquina. Calmo e em paz, tudo se movendo lentamente, suavemente. Silenciosamente, todas as coisas encontrariam seu lugar e tudo ficaria numa boa. Numa calma e tranquilidade tal como a de tomar um banho quente, de banheira, numa tarde, escutando lá fora o barulho manso da chuva caindo de um céu cinzento que entra pela janela. Coisa danada de boa…

Enfim, é isto aí. Quem sabe, um dia? Quanto ao mais, Dr. Marcos, a nossa entrevista está rendendo e sabe de uma coisa? Parece que não fomos mal, pelo contrário, temos recebido elogios. Estão me perguntando se serei mesmo candidato…

Obrigado, um abraço e até a próxima.

Crônica de novembro de 1995