Tempos atrás, lembro-me, fiz uma crônica sobre alguns personagens inesquecíveis da história de Itabira. Não se tratava de personagens da vida política ou cultural da nossa cidade. Ao contrário, colecionei, através do tempo e de minhas lembranças, tipos populares que povoaram a vida desta cidade. Roque, Caetano Pontaria, Sá Delê, Paulo Jacaré, Sertanejo, Barateiro, Juca de Sô Paulo, Carrinho Debalde e tantos outros que ficaram arquivados na memória, agora envoltos nas brumas de um passado quando Itabira era puro sonho e mistério.

Voltando àquela crônica, é certo que esqueci alguém, ou alguns personagens que escaparam da galeria. Mas, de um tenho absoluta certeza de que me esqueci e este é do primeiro time, sempre foi do esquadrão de elite das ruas de Itabira. Estou falando do Manoel Gato, ou melhor, Mané Gato. Agora que Itabira já não tem mais tipos folclóricos, o Manoel, desafiando o tempo, ainda vaga pelas ruas. Já velho, cabelo grisalho, pernas tortas, lá vem ele, agora andando a esmo. Porque me lembro dele, lá longe, entregando roupa que vinha da lavanderia, isto é, da tinturaria, que é como se chamava então.

Pobre Manoel, morou nos desvãos dos sobrados itabiranos durante toda a sua vida. De onde veio? Quem seriam seus pais? Será que tem parente em algum lugar? Por último, foram-se os sobrados e Manoel ficou sem pousada. Perambula pelas ruas dia e noite, com seu passo manco e seu olhar enviesado de gato sem dono. Mas não se esquece das pessoas, “como vai D. Stela? E o Dr. Spencer? Que pena que Dr. Nico morreu.” Me fala, sempre que seus olhos saem do chão. Tudo bem, Manoel e neste curto diálogo ele me leva de volta àquela Itabira de sonhos, mistérios e luares gelados… Mané Gato fecha um ciclo da nossa história.

Um abraço.