Tempos atrás, lembro-me, fiz uma crônica sobre alguns personagens inesquecíveis da história de Itabira. Não se tratava de personagens da vida política ou cultural da nossa cidade. Ao contrário, colecionei, através do tempo e de minhas lembranças, tipos populares que povoaram a vida desta cidade. Roque, Caetano Pontaria, Sá Delê, Paulo Jacaré, Sertanejo, Barateiro, Juca de Sô Paulo, Carrinho Debalde e tantos outros que ficaram arquivados na memória, agora envoltos nas brumas de um passado quando Itabira era puro sonho e mistério.

Voltando àquela crônica, é certo que esqueci alguém, ou alguns personagens que escaparam da galeria. Mas, de um tenho absoluta certeza de que me esqueci e este é do primeiro time, sempre foi do esquadrão de elite das ruas de Itabira. Estou falando do Manoel Gato, ou melhor, Mané Gato. Agora que Itabira já não tem mais tipos folclóricos, o Manoel, desafiando o tempo, ainda vaga pelas ruas. Já velho, cabelo grisalho, pernas tortas, lá vem ele, agora andando a esmo. Porque me lembro dele, lá longe, entregando roupa que vinha da lavanderia, isto é, da tinturaria, que é como se chamava então.

Pobre Manoel, morou nos desvãos dos sobrados itabiranos durante toda a sua vida. De onde veio? Quem seriam seus pais? Será que tem parente em algum lugar? Por último, foram-se os sobrados e Manoel ficou sem pousada. Perambula pelas ruas dia e noite, com seu passo manco e seu olhar enviesado de gato sem dono. Mas não se esquece das pessoas, “como vai D. Stela? E o Dr. Spencer? Que pena que Dr. Nico morreu.” Me fala, sempre que seus olhos saem do chão. Tudo bem, Manoel e neste curto diálogo ele me leva de volta àquela Itabira de sonhos, mistérios e luares gelados… Mané Gato fecha um ciclo da nossa história.

Um abraço.

Vindo dos confins do universo, de fronteiras sequer imagináveis, quatro mil e tantos anos depois* de sua última visita, lá vem o Hale-Bopp, com a sua cauda brilhante de mais de oitenta milhões de quilômetros.

Um dos espetáculos do universo, a grandeza, a sensação do infinito, quase inconcebível para nós. Nem mesmo conseguimos imaginar, sequer estabelecer uma noção aproximada do limite do universo, se é que existe um limite. A ciência diz que sim.

E quem disse que temos tempo de pensar nisto, com tantos problemas aqui no chão? Mas, de vez em quando, a visita de um cometa como que nos obriga a cogitar coisas, que estão bem acima de nossas cabeças, mas além das nossas acanhadas fronteiras humanas.

Nestes momentos, se a imaginação correr solta, teremos, então, a exata noção de que ainda não sabemos nada, ou quase nada sobre a eterna e enigmática questão do de onde viemos e para onde vamos. Por hoje é só…

Um abraço e até a próxima.

* Na verdade, o período orbital do cometa é de 2537 a 2533 anos.

Confesso a vocês que relutei muito em falar sobre o assunto de hoje. E isto porque acho que é uma coisa muito pessoal, que só interessaria a mim e não via sentido em levá-lo ao ar, fazer dele tema de minha crônica. Bem sei que o Gabiroba já estava esperando por ele, já havia até me cobrado, dias atrás. “Ô, Sérgio. Achei que você fosse fazer uma crônica sobre nossa aposentadoria na Prefeitura”. Aí, eu pensei comigo e respondi ao Marcos: “Espere aí, me dá um tempo, deixa eu me acostumar com a ideia, deixa eu sentir a sensação primeiro.”

Pois é, o tempo vai rolando e já se passou um mês que deixamos a prefeitura, que deixamos a nossa Procuradoria Jurídica. Ainda é pouco para nós que trabalhamos mais de vinte anos, o Gabiroba quase trinta, e tantos outros companheiros que saíram junto com a gente. Fechamos mais um ciclo no caminho de nossas vidas.

E quando se fala disto, é inevitável uma certa nostalgia, não tem como escapar das recordações, afinal, foi uma existência vivida nas lides municipais, desde o tempo do prédio onde é hoje o museu, passando pelo antigo hospital, na rua Major Lage, pelo prédio lá no alto do Pará e, finalmente, no Paço Municipal, construído no governo do José Maurício. Lá estávamos nós, os advogados da Prefeitura Municipal de Itabira.

Passou o tempo, passaram as pessoas, ficaram as coisas. E nossos pareceres ficarão? Por mim, sem falsa modéstia, me atrevo a dizer que marcamos nosso lugar e ouso acreditar que seremos lembrados, pois, foi, acima de tudo, um bom tempo.

Um abraço e até a próxima!

Tenho aqui, na minha frente, o convite para as solenidades comemorativas do 141º aniversário de fundação da Irmandade Nossa Senhora das Dores, da qual, com muita honra, faço parte, na categoria de Irmão. A Irmandade, com mais de um século de existência, através do nosso querido Hospital Nossa Senhora das Dores, tem prestado a Itabira e a toda a região serviços inestimáveis, que toda a comunidade deveria conhecer mais de perto.

Sem qualquer objetivo de lucro, o HNSD tem socorrido gerações e gerações de itabiranos, nas suas horas de maior aflição. Quantos ali nasceram pelas mãos de ilustres médicos itabiranos, cujos nomes todos guardam na lembrança. Os velhos tempos do hospital no antigo prédio da rua Major Paulo. A luta pela construção do prédio novo. Ali, onde está hoje o hospital, lembro-me bem, os da minha geração também se lembram, foi feito um aterro para o início das obras e durante muito tempo, antes que elas começassem, fizemos um campo de futebol, onde se travaram batalhas memoráveis, era o Campo do Aterro, de onde saíamos cobertos de um pó, com uma cor estranha.

Os tempos mudaram. À custa de muita luta de todos aqueles que o têm administrado, com a ajuda, sempre presente, mas nem sempre fácil, da comunidade, da Companhia Vale do Rio Doce e da Prefeitura, o Nossa Senhora das Dores se tornou um marco na região e hoje, apesar das dificuldades que ainda persistem, podemos dizer que se tornou um exemplo de esforço e dedicação, que é motivo de orgulho para todos nós, quando falamos dele. Quem sou eu para contar, aqui, numa crônica, o que foi a luta para o HNSD chegar ao que é hoje…. Merecia um livro…

O Nossa Senhora das Dores sempre esteve presente em nossas vidas, na alegria e na dor, até parece casamento. Quem por lá nunca passou? Acho que é o momento certo para fazermos uma reflexão, todos nós, para prestarmos uma justa homenagem àquela casa. É bom lembrar que mesmo nos momentos em que dela não necessitamos, outros lá estão, com alegria ou tristeza, porque disto é feita a vida e o hospital precisa, sempre, de cada um de nós. No mínimo, de nossa solidariedade. Parabéns para o HNSD, parabéns para Itabira.

Um abraço e até a próxima.

Marcos, quando você estiver lendo esta crônica, no sábado, no tradicional horário de 13 horas, se Deus quiser, estarei em Nova Iorque. Vamos pelo céu azul, pelas asas da Varig, varando a noite estrelada, rumo à constelação de escorpião. Finito e infinito se cruzam no espaço e o tempo se torna mera referência material, a leste ou a oeste de Greenwich acertaremos nossos relógios, como bons mineiros.

Tudo bem, isto é, quase tudo, porque o Collor está de volta. A triste figura retorna depois de três meses de viagem pela Europa e Estados Unidos. Agora, mora em Miami, reduto de políticos latino americanos apeados do poder. Só a Roseane trouxe oito malas e não sei quantos cachorros. Estão em Maceió, no feudo familiar. Pobre Alagoas.

E o Fernando já chegou deitando falação. Diz que vai retornar à vida política, que vai escrever um livro, que o Fernando Henrique vai mal porque não dialoga com o povo, e por aí. O homem não tem mesmo vergonha na cara. Deve estar achando que todo mundo já esqueceu das suas bandalheiras quando era presidente e que a absolvição do Supremo limpou a sua barra. Mas que tem muita gente acreditando nele e querendo sua volta isto tem.

Vocês sabem muito bem que a nossa memória é curtinha e que, de repente, para achar que o Fernandinho foi vítima de uma armação, não custa nada. É claro que ele sabe disto e em cima disto vai planejar sua volta ao poder. O esquemão dele não foi nem tocado, somente pegaram o PC que, logo, logo, estará roubando da gente outra vez. Olha, a melhor solução para o Brasil seria o banimento do Collor e sua corja para Ruanda ou para a Bósnia, quem sabe para a Chechênia, qualquer lugar de onde não voltassem nunca.

Isto é sonho, vão ficar aqui, na boca, para rapinar o povo outra vez. Por isto, é bom a gente não esquecer de tudo aquilo que aconteceu, é bom gravar bem, recordar, rever como se fosse um filme, a cara de pau do Collor, a sua pose, brincando de ser presidente do Brasil, como se estivesse no quintal de sua casa em Maceió. Temos de alertar nossos filhos, manter viva a nossa vergonha de ter eleito um incompetente, um fantoche, para que a praga não volte. E mais, alguém precisa falar para o Collor, que ele não tem moral, nem bagagem política para criticar qualquer governo, muito menos o do Fernando Henrique, que, se não fizer nada, pelo menos será honesto. E ele, Collor de Mello? Vade retro!

Muito obrigado e até depois das férias. Isto se não vier uma crônica, via fax, lá dos Estados Unidos, não é, Marcos?

Eu também quero ir para Manaus. Tá lá, no Diário de Itabira, manchete de primeira página. Dezesseis dos nossos queridos vereadores, inclusive alguns que nem se reelegeram, estão de malas prontas para voar para Manaus. Diz o jornal que vão participar de um congresso, durante quatro dias, tudo à custa do povo de Itabira. Imaginem vocês, em final de mandato, vereadores que nem vão voltar para a Câmara, se mandam para um congresso lá no Amazonas. Não tem o menor sentido. Diria nosso Boris Casoy doméstico, na TV Cultura de Itabira: Cáspite!! Que dia, hein??

Apenas três vereadores não iriam. Pastor Messias, Zé do Cachimbo e Maria José Pandolfi. Viva!! Agora vejam bem, um dos temas do tal conclave é exatamente a “Responsabilidade no Final do Mandato”. Coincidência. Melhor seria se o tema fosse a “Irresponsabilidade no Final do Mandato”. Aí vocês diriam: Só no final?

Pior é que todos sabem que a Prefeitura está em regime de contenção de despesas há mais de dois anos. Que o prefeito baixou um decreto proibindo os funcionários de participarem de cursos, congressos, etc. Quem quiser ir, vai, mas paga do próprio bolso. Só que a nossa admirável Câmara Municipal é diferente, é outro poder, parece que nem é daqui. Será de outro país? E lasca dinheiro na fornalha, só que esta grana sai mesmo é do nosso bolso.

Não dá para entender como é que nós vamos pagar para os quase ex-vereadores se mandarem lá para Manaus e depois do que aprenderem no congresso, nem estarão mais na Câmara. E aí? Vão aplicar os ensinamentos onde? Em casa? Ou será que dá para entender?

Vereador não reeleito, em final de mandato, participar de congresso, com recursos do erário, pode até ser legal, mas que é imoral, isto lá é. Conclusão: Pode cair avião o quanto quiser (ou, não importa que a mula manca), eu quero é rosetar!!!

Um abraço e até a próxima.

Crônica de 1996