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Lá está, logo no início, na subida da rua do Bongue, a casa de Miguel Alves. Abandonada, com as vidraças quebradas, fantasmagóricas trepadeiras nascendo em seu corpo e subindo para o telhado, numa estranha rede que vai lhe tomando a fachada, sofrida e dilacerada pela inclemência do tempo, dos ventos, das chuvas, da inexorável e invencível velhice, que vai se espalhando por todos os seus lados.

Visto de fora, até parece uma casa assombrada, destas que a gente vê nos filmes de terror. Mesmo assim, assustadora em seu abandono, não perde em nossa lembrança a beleza daquilo que a fazia peculiar para um garoto de calças curtas que lá chegava, admirado de ver tantas gaiolas, com tantos passarinhos, canários, pintassilgos, chapinhas, melros, e sei lá mais quantos, ali, aguardando quem quisesse comprar. Eu ficava intrigado e me perguntava como é que o velho Miguel Alves conseguia apanhar tantos passarinhos. Como? Se era tão difícil pegá-los no alçapão? E ali, aquela quantidade.

Então me ocorria que o velho Miguel usava visgo. Este tal de visgo era para mim uma coisa um tanto mágica, uma espécie de cola vegetal que espalhada nos galhos das árvores prendia o pássaro que lá pousasse, que ficava colado sem poder se soltar. Nunca vi isto funcionar, apenas ouvi dizer, por isto sempre me soou como algo mágico. Lendas da infância, talvez…

São estórias e lembranças nostálgicas das velhas casas, dos velhos sobrados de Itabira, que me assaltam e me procuram, trazendo de volta vultos e figuras já perdidos no tempo, que insistem em viver como fantasmas agarrados às suas coisas materiais, às raízes terrenas que ainda permanecem e lhes dão um último alento de vida, mesmo que seja apenas em nossa memória.

Até a próxima.