cronica_semana_55_perfil_facebookDizem que a vida não vale nada, que para morrer basta estar vivo e outras coisas mais. Pensando bem, é verdade. A nossa vida, realmente, está sempre por um fio. Perigos existem por toda a parte, nossa sorte é que aprendemos a conviver com eles e não nos assustamos mais. Mas, vez ou outra, certos acontecimentos nos fazem parar para pensar sobre a fragilidade de nossa existência, que pode ser interrompida em um segundo. Não vão vocês pensar que isto é pessimismo, não, é a realidade.

O que acontece é que estamos sempre muito ocupados com as coisas materiais, com o nosso dia a dia, com a sobrevivência, para nos preocuparmos com o fim das coisas, que é inexorável. Quem de nós pode dizer que está sempre preparado para partir? Poucos, muito poucos e, no entanto, sabemos que teremos que partir, só não sabemos o dia e a hora. Este não é bem um tema para uma crônica, vocês haveriam de dizer. Mas, por que não? É fácil de explicar. É que temos visto tanta gente ir embora sem nenhum aviso, que somos levados a falar disto. Que o tema não era proposital, era pra ser apenas uma breve referência, mas acabou se tornando o assunto da crônica.

Mas explico as razões para estendê-lo e não seria para menos, ainda mais depois do horrível acidente com o avião da TAM em São Paulo, na semana passada. Foi o mais chocante porque o acidente aconteceu na rua. Se o avião tivesse caído longe, na selva ou mar, o impacto seria menor, com certeza. Mas, foi na nossa frente, pela televisão, todos aqueles corpos carbonizados de gente que, poucos minutos antes, bem vestida e perfumada, que é como se viaja de avião, estava confortavelmente sentada em suas poltronas no fatídico Fokker do vôo 402. Em segundos se transformara em matéria carbonizada. Quem deles poderia sequer imaginar que sua hora tinha chegado, assim, em uma simples e rotineira viagem de uma ensolarada manhã de quarta-feira? Quem deles poderia imaginar que jamais chegaria ao seu destino? A morte, assim, sem mais nem menos? Os insondáveis desígnios, o eterno mistério de nossa caminhada…

Até a próxima e um abraço.

Crônica de novembro de 1996