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Lá está ele, na porta da loja, apenas uma porta aberta, que já não é nem para vender mais nada, a não ser recordações, mas estas são de graça. Uma porta aberta apenas, as outras fechadas, mas uma porta já é suficiente para nela se encostar e papear com os amigos que sempre aparecem. Quantos anos já se passaram, não sei, mas já vai para mais de cem anos e a velha loja ainda resiste. Balcões antigos, já tomados de cupim, vidros por cima e nas laterais. Prateleiras desengonçadas revelam o sinal dos tempos. Numa e noutra alguma mercadoria, velhas ferraduras, fechaduras, parafusos, ali um vaso de cerâmica, claro, coisas que ninguém mais vai comprar neste tempo de computadores, chips e controle remoto. Uma loja anacrônica.

O fundo da loja agora está sempre escuro, janelas fechadas, no ar, o cheiro característico de coisas velhas, guardadas, a madeira e o mofo. A loja tem um escritório, quadros antigos nas paredes, de meu avô, meus ancestrais. Velhas escrivanias, imponentes com seus bancos altos, cercadas nas laterais com grades de madeira, o que lhes dava um estilo imperial. Será que ainda estão lá? Faz tanto tempo que não passo da porta da loja. A loja, como falavam em minha casa, quando eu ainda era menino. No tempo em que lá se encontrava de tudo, até pasta dental importada de Vermont, lá nos Estados Unidos, onde um dia, quem diria, eu fui parar, debaixo de um céu estrelado e frio.

Nas férias, um ponto de parada nos tempos de estudante, as portas da loja, estrategicamente se abrindo para a esquina mais central do centro da cidade. Dali, encostado na porta ou apoiado no balcão, eu podia acompanhar todo o movimento do centro da cidade, a hora dos bancos abrirem, as meninas passando no final das aulas, o vai e vem da rua Tiradentes. Todo mundo passava em frente à loja. Da porta da loja, quantas vezes senti os gelados crepúsculos de junho descendo sobre a rua Tiradentes, a indecifrável noite caindo sobre a rua Tiradentes, que serpenteava até a Matriz. Era outro mundo, sem dúvida. Estava devendo esta para a loja, a velha e inesquecível loja de Rosa e Cia., de tantas recordações.

Um abraço e até a próxima.