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Chega o Gabiroba e diz para mim, Sérgio, vou te dar uma ideia para sua crônica de sábado. Tudo bem, Marcos, estou escutando. Olha, Sérgio, se você não tiver definido sobre o que escrever, escreva sobre o dia das mães, escreva sobre a mãe. Vou pensar nisto. E pensei, só que não ia dar para fazer uma crônica nos padrões de mamãe, mamãe, se pudesse eu queria, outra vez mamãe, começar tudo, tudo de novo, como naquela nossa conhecida valsinha.

Porque não consigo, não posso apagar de minha retina a imagem da mãe nordestina, olhando da porta do seu barraco de sapé, a paisagem seca e desolada, da mais pura e refinada miséria na aridez da terra e na vegetação cor de cinza, que virou sua pequena lavoura. A imagem da mãe, voltando seus olhos opacos para dentro do barraco, fixando os olhos exageradamente grandes e agoniados dos filhos, mudos, implorando por um pouco de comida. E aquela mãe sabe que nem a água com farinha dará para todos, alguns só poderão olhar e esperar a próxima vez.

E aquela mãe nem sabe que atravessando o mar, da costa do Ceará, em linha reta para a África, está a miséria da África, a negritude da África, a fome ancestral da África. Negros esqueléticos, pele e osso, perambulam pela planície desolada. Alguns vão morrendo pelo caminho e seus corpos nem ao menos são sepultados. As mães, esquálidas figuras negras e empoeiradas, carregam os filhos pendurados na cintura, compondo um quadro bizarro no triste crepúsculo da fome.

Tenho que me lembrar das mães dos filhos mortos nas guerras e revoluções, das mães dos filhos desaparecidos vivos e jamais encontrados, das mães dos filhos das ruas, dos marginais, dos drogados e viciados, das prostitutas e dos ladrões. Pois mãe não é só uma palavra, mas um estado eterno do ser humano, que traz consigo a miséria e o sublime, o humano e o divino. Parabéns para vocês.

Um abraço e até a próxima.