cronica_semana_#27_perfil_facebook

E lá estava eu, a televisão na minha frente, não tinha como não ver. E lá vendo a notícia. Na cidade de Campestre, aqui mesmo, em Minas Gerais, um vereador resolveu deixar a Câmara, vestiu-se com uma túnica, arranjou um cajado e uma Bíblia e passou quarenta dias em jejum, vagando pelos cafezais da região. Ao fim dos quarenta dias, apareceu, foi internado em um hospital, onde veio a falecer dado o grave estado de desnutrição em que se achava quando foi encontrado.

Para mim, que já ando descrente de nossos políticos, a notícia me tocou na hora, tanto que pensei de pronto: preciso me lembrar dela quando for escrever minha crônica no final da semana. E aqui estou eu com a notícia do indigitado vereador campestrino. Claro que o fato tem o seu lado trágico, mesmo assim sugere e nos induz a pensar em outras questões menos trágicas, quase cômicas, se me permitem, e com o devido respeito.

Tudo nos leva a crer que o tal vereador de Campestre cismou que era Jesus Cristo e como na região não tem deserto, embrenhou-se pelos cafezais para jejuar. Não se sabe, ou pelo menos não foi noticiado, se chegou a ser tentado pelo demônio. Acredito que não, porque não teria resistido, com certeza.

Talvez vocês não percebam, mas o fato acontecido extrapola as fronteiras do município de Campestre. Seu significado é muito maior do que parece, pois não se trata de um caso isolado, outros virão, com certeza, um ritual, uma tentativa de purificação da classe política no Brasil inteiro. Isto é apenas o começo de uma grande mudança. Dizem que o próximo a fazer este jejum vai ser o Sérgio Naya, e outros virão.

Eu, por mim, acho que pouco adianta, pois nem Cristo conseguirá salvar nossos políticos, nem hoje, nem dia nenhum. Basta lembrar, para mostrar que eles estão cada dia mais sacanas, a sem-vergonhice daquele deputado federal do Paraná, o tal José Borges, que foi flagrado votando para seu colega paranaense. Pasmem vocês, o José Borges (acho que o nome é este) foi para frente de seus pares na Câmara Federal dizendo que tinha cometido um erro, que estava arrependido e começa a chorar. Um homem daquele tamanho, deputado federal, abre o bué. E deu resultado, ele não será cassado. Os coleguinhas ficaram com peninha dele. Fosse eu, diria: Zé Borges, veste a túnica e vai jejuar no deserto do Planalto Central…

Um abraço e até a próxima.

cronica_semana_#26_perfil_facebookCachorro no banco da praça. Da minha janela vejo a praça, paisagem ainda nova e que cada vez mais gosto de olhar. Muito verde, ecologicamente verde, mas já precisando de um trato, a praça tem seus frequentadores habituais, além dos estudantes, é lógico. Um cachorro, legítimo vira-lata, puro sangue, faz dela seu ponto, onde passa a manhã inteira.

Até aí nada demais, mesmo porque cachorro na praça é coisa banal e corriqueira. Banal também é a gente ver cachorro dormindo na praça. E acontece que a praça tem seus bancos e pelo que sempre foi de meu conhecimento, não por ouvir dizer, mas por ciência própria, cachorro sempre dorme debaixo do banco da praça, nunca em cima. Mas este cachorro não, lá está ele, deitado no assento do banco, todo estiradão, a barriga subindo e descendo em um movimento de sono profundo.

Pensei comigo, que cachorro danado de folgado, sô. Nem toma conhecimento de que está ocupando o banco da praça, não tá nem aí se alguém estiver querendo se sentar. Sinal dos tempos. É a subversão, os cachorros já não querem mais dormir no chão, debaixo do banco. Não, querem agora tomar nosso lugar e dormir em cima do banco, que antes era o lugar onde só os mendigos e os perdidos na noite podiam dormir. E lá está ele indiferente, senhor da situação. Aí, intrigado, fico me perguntando: como é que o danado descobriu que dormir em cima do banco é mais confortável? Sem dúvida que se pode dizer que é um cachorro que subiu na vida. Cachorro esperto…

Terremoto à brasileira. Não é dizer que não temos terremotos, até que temos, mas não passam de simples tremores de terra, nunca derrubaram nada, nem um mísero barracão. Mas o que a natureza nos tem poupado, a arte do Sérgio Naya não perdoa, fazendo ruir prédios inteiros, provocando mortes e deixando milhares de pessoas sem suas casas. E o crápula ainda é deputado e garanto a vocês que vai sair desta limpo, limpo. Aí é que está a diferença: com toda a desgraça, ainda será mais fácil suportar os danos de um terremoto de verdade, do que ver a ruína e a tragédia de tantos, causadas pela irresponsabilidade de um Sérgio Naya, permanecer impune…

Um abraço e até a próxima

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Lá está ele, na porta da loja, apenas uma porta aberta, que já não é nem para vender mais nada, a não ser recordações, mas estas são de graça. Uma porta aberta apenas, as outras fechadas, mas uma porta já é suficiente para nela se encostar e papear com os amigos que sempre aparecem. Quantos anos já se passaram, não sei, mas já vai para mais de cem anos e a velha loja ainda resiste. Balcões antigos, já tomados de cupim, vidros por cima e nas laterais. Prateleiras desengonçadas revelam o sinal dos tempos. Numa e noutra alguma mercadoria, velhas ferraduras, fechaduras, parafusos, ali um vaso de cerâmica, claro, coisas que ninguém mais vai comprar neste tempo de computadores, chips e controle remoto. Uma loja anacrônica.

O fundo da loja agora está sempre escuro, janelas fechadas, no ar, o cheiro característico de coisas velhas, guardadas, a madeira e o mofo. A loja tem um escritório, quadros antigos nas paredes, de meu avô, meus ancestrais. Velhas escrivanias, imponentes com seus bancos altos, cercadas nas laterais com grades de madeira, o que lhes dava um estilo imperial. Será que ainda estão lá? Faz tanto tempo que não passo da porta da loja. A loja, como falavam em minha casa, quando eu ainda era menino. No tempo em que lá se encontrava de tudo, até pasta dental importada de Vermont, lá nos Estados Unidos, onde um dia, quem diria, eu fui parar, debaixo de um céu estrelado e frio.

Nas férias, um ponto de parada nos tempos de estudante, as portas da loja, estrategicamente se abrindo para a esquina mais central do centro da cidade. Dali, encostado na porta ou apoiado no balcão, eu podia acompanhar todo o movimento do centro da cidade, a hora dos bancos abrirem, as meninas passando no final das aulas, o vai e vem da rua Tiradentes. Todo mundo passava em frente à loja. Da porta da loja, quantas vezes senti os gelados crepúsculos de junho descendo sobre a rua Tiradentes, a indecifrável noite caindo sobre a rua Tiradentes, que serpenteava até a Matriz. Era outro mundo, sem dúvida. Estava devendo esta para a loja, a velha e inesquecível loja de Rosa e Cia., de tantas recordações.

Um abraço e até a próxima.

cronica_semana_#24_perfil_facebook

Chega o Gabiroba e diz para mim, Sérgio, vou te dar uma ideia para sua crônica de sábado. Tudo bem, Marcos, estou escutando. Olha, Sérgio, se você não tiver definido sobre o que escrever, escreva sobre o dia das mães, escreva sobre a mãe. Vou pensar nisto. E pensei, só que não ia dar para fazer uma crônica nos padrões de mamãe, mamãe, se pudesse eu queria, outra vez mamãe, começar tudo, tudo de novo, como naquela nossa conhecida valsinha.

Porque não consigo, não posso apagar de minha retina a imagem da mãe nordestina, olhando da porta do seu barraco de sapé, a paisagem seca e desolada, da mais pura e refinada miséria na aridez da terra e na vegetação cor de cinza, que virou sua pequena lavoura. A imagem da mãe, voltando seus olhos opacos para dentro do barraco, fixando os olhos exageradamente grandes e agoniados dos filhos, mudos, implorando por um pouco de comida. E aquela mãe sabe que nem a água com farinha dará para todos, alguns só poderão olhar e esperar a próxima vez.

E aquela mãe nem sabe que atravessando o mar, da costa do Ceará, em linha reta para a África, está a miséria da África, a negritude da África, a fome ancestral da África. Negros esqueléticos, pele e osso, perambulam pela planície desolada. Alguns vão morrendo pelo caminho e seus corpos nem ao menos são sepultados. As mães, esquálidas figuras negras e empoeiradas, carregam os filhos pendurados na cintura, compondo um quadro bizarro no triste crepúsculo da fome.

Tenho que me lembrar das mães dos filhos mortos nas guerras e revoluções, das mães dos filhos desaparecidos vivos e jamais encontrados, das mães dos filhos das ruas, dos marginais, dos drogados e viciados, das prostitutas e dos ladrões. Pois mãe não é só uma palavra, mas um estado eterno do ser humano, que traz consigo a miséria e o sublime, o humano e o divino. Parabéns para vocês.

Um abraço e até a próxima.

cronica_semana_#23_perfil_facebook

O poder, ah o que faz o poder com certas pessoas. Elas se transformam completamente. Andam e falam como se estivessem pisando em nuvens, como se tivessem uma aura a lhes circular a cabeça. Basta um olhar para ver que se acham em estado de completo deslumbramento. Os outros, lá em baixo, não passam de pobres mortais, apenas e nada mais que isto. Mas, as aparências, como sempre, enganam e tirando-lhes o poder, sempre efêmero, nada lhes restará senão um imenso vazio, tal qual um buraco negro.

Meus amigos, esta referência sobre o poder não é minha. Apenas tomei a liberdade de sintetizá-la a partir de um texto que li outro dia, de autoria de um sociólogo e pensador sueco, em uma revista que nem me lembro mais o nome. Mas que é a mais pura verdade, isto lá é. Portanto, fica advertência: cuidado, meus senhores e minhas senhoras de todo este Brasil, com a perigosa e envolvente droga chamada poder. Seus efeitos inebriantes e sutis já atacaram muita gente, dizem que até o nosso falante presidente Fernando Henrique. Será??? É bem possível, porque presidente é uma das vítimas favoritas da praga.

Mas, se fosse só para falar disto, o assunto não teria fim tão cedo. Ia para muito mais de uma simples crônica. Aliás, já existem tratados sobre a matéria de autores famosos e eu não me atreveria a entrar em um tema tão complexo, a não ser de leve. Mas vamos falar de outras coisas, antes que eu me esqueça. De gente que fez Itabira, gente como Júlio Papa Roma, ou Papa de Roma, como é o certo. Grande figura, destas que ficarão sempre em nossa lembrança. De goleiro do Valério a pintor primitivista. O bom e velho Papa Roma do bairro Boa Esperança, lá perto da Chapada. Nunca me esquecerei de sua luta para legalizar o seu bairro, todo dia na Prefeitura. Fica para sempre na galeria dos itabiranos de coração. E sem esquecer que foi personagem de marchinha carnavalesca de autoria de Zé Picolé. Além se lembra???

Um abraço e até a próxima