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Madrugada. O bêbado descia a rua resmungando palavras truncadas. Discutia com ele mesmo, perguntava e respondia. À medida que ia se aproximando dava para entender melhor o que falava. Incrível, falava de coisas aparentemente sérias. Não xingava, nem dizia palavrões, como fazem os bêbados na calada da noite.

Falava com aquela voz típica de bêbado, é verdade, mas dizia coisa com coisa, com certa dificuldade, é claro. Aí é que comecei a prestar mais atenção e ficava cada vez mais surpreso. Sem dúvida, o nosso cidadão etílico sabia das coisas e dava para perceber que tinha um certo conhecimento.

No que ele chegou mais perto, aí reconheci. Era o Tião. Há muito tempo que não passava na minha rua. Até achei que tinha se mudado de Itabira, tinha sumido por uns tempos. Mas, não, era ele mesmo. Tião passava, sempre, alta noite, descendo a rua Mestre Emílio, com a cuca cheia, vociferando ameaças apocalípticas para as casas silenciosas, pregando sermões para os cães e gatos da madrugada e gostava de cantar hinos patrióticos e músicas sacras, com relativa afinação. Quantas vezes, eu, do meu quarto, o escutava cantando “O Cisne Branco”, sim, aquele mesmo “cisne branco que em noite de lua vai navegando…” e o acompanhava, em silêncio, o danado, naquele fogo todo, ia até o fim, certinho.

Claro que incomodava, mas era um bêbado interessante. Só para se ter uma ideia dos temas que desfiava nas madrugadas, basta dizer que ele discorria tranquilamente sobre Arariboia, Mem de Sá e a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro. O homem conhecia e curtia história. Sempre em um debate dele com ele mesmo.

Nesta noite, lá vinha ele, despencando rua abaixo. Percebi que o tema em pauta era religioso. Qualquer coisa a respeito dos sermões do Padre Antônio Vieira. Falava e esbravejava contra a corte de Portugal. Ameaçava reis e príncipes. Aí, começou a misturar tudo, entrou em Portugal com as sete pragas do Egito e confundiu o rei Afonso Henriques com o Fernando Henrique, a quem chamou de Ademar de Barros, afirmando que foi Moisés quem inventou as leis de trânsito e que foram escritas em uma tábua.

De repente, já lá no fim da rua, lascou um “libertas quae sera tamem” e perguntou, bem alto, sabe quem falou isto? Foi o Dr. Tancredo Neves, lá em Ouro Preto, ele mesmo respondeu e sumiu na noite, xingando a falta de iluminação do “Água Santa Park”, logo ali embaixo, no seu caminho noturno.