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Domingo de manhã. Manhã de domingo, lá fora a chuva caía forte, barulhenta. Céu cinzento, carregado de gordas nuvens líquidas. No quarto, a penumbra, cortinas cerradas, só chegava o ruído do desaguar das goteiras dos velhos sobradões. A rua devia estar que nem um rio de enxurrada, imaginava, deitado na preguiça indolente e morna da manhã chuvosa de domingo. As árvores do quintal deviam estar ensopadas, as folhas brilhantes, pingando água. Tudo era paz e sossego. Um torpor anestesiava o corpo e o espírito.

Fim de tarde, as lanternas dos carros brilhavam em vermelho, a linha do horizonte se desenhava lá na frente, além da fila que esperava o sinal abrir. No rádio do carro, a música de Marina, que não era Marina, era Adriana, chamou, entrou-lhe pelo corpo em um embalo gostoso. Legal. O inverno do Leblon é glacial. O céu se uniu à terra, para espanto do Ocidente. Fechou o vidro do carro para ouvir melhor, sem interferência. Legal. Música legal. Cantora legal. Tudo bem. Foi até o fim para saber o nome da cantora. Parecia Marina, mas era Adriana. Gostou. Nome bonito, igual Marina.

Noite. Serras fazem o recorte em negro contra o céu claro de lua. Para além das serras, a planície já começa a ficar coberta pela bruma, um manto branco e leitoso que desce, lentamente, tomando tudo. Ficam as luzes da cidade, pontos brilhantes a demarcar as ruas sinuosas, silenciosas na madrugada. Indiferentes, absolutamente indiferentes e frias, as estrelas, eternas como o universo imutável, convidam a uma longa viagem, sem retorno. Foi aí que parou para pensar que pouco lhe importava se a Vale fosse privatizada ou que a guerra da Bósnia desse medalhas a militares brasileiros, o que queria, mesmo, era ser mágico ou astronauta, os dois, se possível. Pura metafísica.

Um abraço e até a próxima.