cronica_semana_#13_perfil_facebook

Tenho pensado e cheguei a uma conclusão, vivemos em um mundo de contrastes. Sei que isto não é nenhuma novidade para vocês, mas depende do lado que a gente olha. Estou falando de privacidade, assunto que adquiriu grande importância de uns tempos para cá. Parece que o mundo redescobriu o direito à privacidade. Todas as legislações, em todo o mundo, passaram a dar um enfoque especial no assunto. Enfim, o direito à privacidade ganhou foro constitucional, inclusive no Brasil.

Mas, ao mesmo tempo em que o cidadão se cerca de garantias e se torna cada dia mais exigente no que diz respeito à sua privacidade, paradoxalmente, a natural evolução dos meios de comunicação começa a ameaçar sua privacidade. Prestem atenção ao que está acontecendo na era do telefone celular e me digam se não tenho razão. Lá está você, na lanchonete, tomando seu capuccino, quando, do lado, a moça que faz lanche, saca seu celular e entra a papear com o namorado, ou com a irmã, a cunhada, sei lá quem mais e você, mesmo não querendo, fica sabendo de um montão de coisas da família da pessoa. De repente, pode até acontecer de surgir assunto sobre um seu amigo ou parente. Acontece que com a popularização do celular, o que antes você só falava em casa ou no escritório, agora você está falando na rua. E vai ficando cada vez mais natural. Brigas, discussões, cantadas, negócios por telefone, de tudo você escuta e ninguém mais está ligando nem um pouco.

A mesma quebra de privacidade, em grau diferente, também está começando a se desenhar com a grande proliferação dos self-services, das comidas a quilo. Sinal dos tempos, imposição da vida moderna. O ato de comer, que antes era praticado com privacidade, dentro de casa, hoje está cada vez mais público e exibido. Aí você vê gente educada que come bonito, mas também vê o cara que arrota com a cara mais limpa e depois diz que na China o arroto é sinal de educação, pois quer dizer que você gostou da comida. Neste caso, ele podia ir arrotar na China e não na mesa ao lado.

E assim as coisas vão acontecendo, em troca de maior conforto e comodidade, começamos a admitir, até sem perceber, intromissão no campo de nossa privacidade, em um contraste que se acentua cada dia mais.

Um abraço.

 

cronica_semana_#12_perfil_facebook

Madrugada. O bêbado descia a rua resmungando palavras truncadas. Discutia com ele mesmo, perguntava e respondia. À medida que ia se aproximando dava para entender melhor o que falava. Incrível, falava de coisas aparentemente sérias. Não xingava, nem dizia palavrões, como fazem os bêbados na calada da noite.

Falava com aquela voz típica de bêbado, é verdade, mas dizia coisa com coisa, com certa dificuldade, é claro. Aí é que comecei a prestar mais atenção e ficava cada vez mais surpreso. Sem dúvida, o nosso cidadão etílico sabia das coisas e dava para perceber que tinha um certo conhecimento.

No que ele chegou mais perto, aí reconheci. Era o Tião. Há muito tempo que não passava na minha rua. Até achei que tinha se mudado de Itabira, tinha sumido por uns tempos. Mas, não, era ele mesmo. Tião passava, sempre, alta noite, descendo a rua Mestre Emílio, com a cuca cheia, vociferando ameaças apocalípticas para as casas silenciosas, pregando sermões para os cães e gatos da madrugada e gostava de cantar hinos patrióticos e músicas sacras, com relativa afinação. Quantas vezes, eu, do meu quarto, o escutava cantando “O Cisne Branco”, sim, aquele mesmo “cisne branco que em noite de lua vai navegando…” e o acompanhava, em silêncio, o danado, naquele fogo todo, ia até o fim, certinho.

Claro que incomodava, mas era um bêbado interessante. Só para se ter uma ideia dos temas que desfiava nas madrugadas, basta dizer que ele discorria tranquilamente sobre Arariboia, Mem de Sá e a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro. O homem conhecia e curtia história. Sempre em um debate dele com ele mesmo.

Nesta noite, lá vinha ele, despencando rua abaixo. Percebi que o tema em pauta era religioso. Qualquer coisa a respeito dos sermões do Padre Antônio Vieira. Falava e esbravejava contra a corte de Portugal. Ameaçava reis e príncipes. Aí, começou a misturar tudo, entrou em Portugal com as sete pragas do Egito e confundiu o rei Afonso Henriques com o Fernando Henrique, a quem chamou de Ademar de Barros, afirmando que foi Moisés quem inventou as leis de trânsito e que foram escritas em uma tábua.

De repente, já lá no fim da rua, lascou um “libertas quae sera tamem” e perguntou, bem alto, sabe quem falou isto? Foi o Dr. Tancredo Neves, lá em Ouro Preto, ele mesmo respondeu e sumiu na noite, xingando a falta de iluminação do “Água Santa Park”, logo ali embaixo, no seu caminho noturno.

cronica_semana_#11_perfil_facebook

Domingo de manhã. Manhã de domingo, lá fora a chuva caía forte, barulhenta. Céu cinzento, carregado de gordas nuvens líquidas. No quarto, a penumbra, cortinas cerradas, só chegava o ruído do desaguar das goteiras dos velhos sobradões. A rua devia estar que nem um rio de enxurrada, imaginava, deitado na preguiça indolente e morna da manhã chuvosa de domingo. As árvores do quintal deviam estar ensopadas, as folhas brilhantes, pingando água. Tudo era paz e sossego. Um torpor anestesiava o corpo e o espírito.

Fim de tarde, as lanternas dos carros brilhavam em vermelho, a linha do horizonte se desenhava lá na frente, além da fila que esperava o sinal abrir. No rádio do carro, a música de Marina, que não era Marina, era Adriana, chamou, entrou-lhe pelo corpo em um embalo gostoso. Legal. O inverno do Leblon é glacial. O céu se uniu à terra, para espanto do Ocidente. Fechou o vidro do carro para ouvir melhor, sem interferência. Legal. Música legal. Cantora legal. Tudo bem. Foi até o fim para saber o nome da cantora. Parecia Marina, mas era Adriana. Gostou. Nome bonito, igual Marina.

Noite. Serras fazem o recorte em negro contra o céu claro de lua. Para além das serras, a planície já começa a ficar coberta pela bruma, um manto branco e leitoso que desce, lentamente, tomando tudo. Ficam as luzes da cidade, pontos brilhantes a demarcar as ruas sinuosas, silenciosas na madrugada. Indiferentes, absolutamente indiferentes e frias, as estrelas, eternas como o universo imutável, convidam a uma longa viagem, sem retorno. Foi aí que parou para pensar que pouco lhe importava se a Vale fosse privatizada ou que a guerra da Bósnia desse medalhas a militares brasileiros, o que queria, mesmo, era ser mágico ou astronauta, os dois, se possível. Pura metafísica.

Um abraço e até a próxima.

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A Bolsa e o bolso. A Bolsa cai em Hong Kong e fura o nosso bolso cá no Brasil. Vejam só se isto é possível. Lá, do outro lado do mundo, na porta do extremo oriente, por razões que a gente nem imagina, a economia dá um break e, de repente, não mais do que de repente, a nossa TR, famosa TR dobra de valor, os juros disparam e mudam toda a perspectiva do fim de ano, tudo por causa de Hong Kong e dos tais Tigres Asiáticos. É verdade, o mundo é mesmo uma grande aldeia. Por causa da Bolsa de Tóquio, o mutuário do BNH, José Carlos Batista, bancário, lá de Taboão da Serra, vai pagar mais caro a sua prestação da casa própria. Agora eu quero ver é ele explicar isto para a mulher e para os filhos, que o Natal deste ano mixou.

É a tal da globalização da economia, o mundo sem fronteiras. Isto é muito bom para quem pode segurar o tranco, isto é, os chamados países ricos. Para eles, tudo bem, tudo é lucro para quem tem uma economia estável. Vejam vocês que para segurar o real, temos de manter os juros altos, temos de vender dólares de nossas reservas cambiais e com os juros altos, quem ganha mais? Quem tem o dinheiro na mão. Quem? Quem? Adivinhem. Mais uma vez é sempre os banqueiros, as multinacionais e os agiotas internacionais. É isto que se chama globalização da economia, isto é, os ricos dividem os lucros e nós, pobres do terceiro mundo, dividimos os prejuízos.

E aqui fico eu pensando o que Zé de Almeida acharia disto tudo. Quase posso vê-lo, sentado na porta de sua venda lá em Cocais, olhando a modorra da tarde, o sol batendo forte nas pedras da rua, seu pensamento voava longe, lá para Portugal, uma aldeia em Trás os Montes, a encosta da serra coberta de videiras, longe, de muito longe, o canto das lavadeiras. Ah, meu Deus, tenho que aprender mais sobre globalização da economia.

Um abraço, gente, e até a próxima.

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Desde que esta é a primeira crônica nossa neste ano da graça de 1996,  acho que devemos, antes de mais nada, pedir a Deus, aos anjos e santos, serafins e querubins, que nos deem um ano feliz, produtivo e de paz entre os homens. Que haja mais seriedade, mais solidariedade e, principalmente, mais sinceridade entre as pessoas. Deixemos que o passado nos ensine melhor o caminho para o futuro. Aproveitemos os erros como lições para um futuro mais organizado, menos confuso. Volto a dizer, cuidado para não esquecer os erros cometidos, abaixo a memória curta.

Promessas e esperanças do ano novo. Sempre repetidas, umas jamais cumpridas, outras nunca alcançadas. Ainda assim, não sejamos pessimistas, vamos acreditar, quem sabe neste ano tudo será cumprido e realizado? Quem sabe? Fácil não é, entretanto, mas também não é impossível…

Aliás, temos motivos de sobra para estarmos bem atentos e com a memória bem fresca, pois este ano é ano de eleições municipais e é certo que o pau vai quebrar. E aí é que a memória não pode ser curta, mesmo, pois alguns dos personagens que virão à cena jã são nossos velhos conhecidos e não mudaram nada. Outros, novos, frescas novidades na área, brigando por um lugar ao sol, deixam seus nomes lançados para ver a reação do eleitor itabirano.

E por falar em eleitor itabirano, pelo que a gente pode imaginar, tem de haver um grande contingente de jovens eleitores, aí, na faixa de menos de vinte anos, que, certamente, poderá decidir as eleições. Ou não é? Aí, pergunto eu: quem tem a mensagem para estes jovens? Que linguagem falam com eles? O que eles querem e esperam do futuro prefeito de Itabira? Até agora, não vi nenhum dos falados candidatos tocar qualquer coisa neste sentido. Lamentável falha. Se eu fosse candidato já estaria trabalhando junto ao eleitor jovem, pesquisando suas aspirações e esperanças, para montar um programa de governo ao seu estilo. Porque está neles a esperança do mundo.

E que tal um candidato bem jovem? Aí vocês dirão: mas o jovem não tem a experiência. Aí eu responderia: mas tem a ousadia, tem a coragem e, principalmente, tem outra visão do mundo, que só os jovens podem ter e que pode nos conduzir a outros horizontes…

Por isto, um abraço e até a próxima, meus amigos.