cronica_semana_08#_blog

Seis horas da manhã. O disco vermelho do sol mostra sua primeira lâmina no horizonte quebrado pela linha das serras. No nascer do dia, esperanças renovadas, novos alentos, a cada despertar, tudo é novo. Cada manhã parece que a vida recomeça, sempre, sempre. E é a mais pura verdade, até que o sol percorra, mais uma vez, o seu caminho no céu e se esconda no poente. E tudo recomeça.

A vida depende do sol, da luz, do calor de seus raios. A morte é a sombra, a escuridão, a penumbra. São os opostos, na eterna dialética que tudo dirige, tudo determina no mundo. Luz e sombra, claro e escuro, amor e ódio, o bem e o mal. Nossa vida inteira gira entre os extremos das coisas, no eterno diálogo a procurar o ponto comum, o equilíbrio, quase sempre inatingível por nós, pobres mortais.

Bom, muito bom, mas o que eu queria nesta crônica tem e não tem a ver com estas divagações, meras divagações. Queria mesmo era falar do cotidiano, da vida das pessoas e das coisas simples, que vemos todo dia e das coisas das quais nem sempre apreendemos o real significado. Por isto admiro e muito aqueles que enxergam o lado oculto, o que ninguém vê ou não quer ver. Podemos passar a vida inteira pelas coisas, sem que elas passem por nós, sem que nos toquem. Não as sentimos, porque não podemos parar, não podemos pensar, não temos tempo. E assim vamos levando a vida, perdendo ou ganhando, quem sabe?

Insisto, portanto, na minha admiração pelos que sabem curtir as coisas simples, sei que eles entendem melhor a vida e seus aparentes mistérios. Os artistas têm este dom. Poucos dias atrás, mais por curiosidade do que por interesse, fui a uma palestra sobre literatura infantil, com o escritor Bartolomeu Campos de Queirós, na FCCDA. Que enorme surpresa ao escutar o tal escritor. Como as coisas pareciam diferentes, vistas por ele. As mesmas coisas que vemos e não nos tocamos. É como se fosse um outro mundo. Mas tudo está aqui mesmo, é só o jeito de ver, não é?

Basta de divagações, que aliás, fazem bem. Voltemos ao nosso dia-a-dia, das vaidades, dos bajuladores, dos desastrados, distraídos e desonestos, mas, também, das esperanças, da alegria, do verdadeiro sucesso e da crença em um futuro melhor para todos nós.

E assim, caros amigos, não poderia terminar esta crônica sem me referir ao falecimento do cidadão e médico Mauro de Alvarenga. No cemitério do Cruzeiro, sem dúvida, repousam grandes homens de Itabira. Homens e mulheres que forjaram, em vida, toda uma marca de uma cidade, de um povo. Que moldaram, como ele, o que somos hoje e o que seremos sempre. Escrever sobre homens como Dr. Mauro, para realçar-lhe as qualidades, seria absolutamente desnecessário tal a sua notoriedade e certamente não caberia em uma crônica. Sobre sua vida, muito melhor, já escreveu Rosemary Penido de Alvarenga e muito mais se poderá escrever, ainda.

Aproveitando, no entanto, a oportunidade, quero deixar, nesta hora, um alerta ao nosso povo, aos jovens, principalmente, para cultuar nossos homens ilustres, para que o seu exemplo não morra jamais.

Até breve.

cronica_semana_07#_blog

Como é tempo de Natal, andei pensando em escrever a crônica sobre um tema natalino. Várias ideias me ocorreram, falar de paz, amor, daquelas mesmas coisas de sempre, que se repetem todo ano no Natal. Presentes, alegria, reis magos, estrela de Belém e por aí. Mas, pensando bem, nem é preciso falar ou escrever sobre estas coisas, elas já estão no ar, inseridas no contexto natalino. E daí? Continuei a pensar no que dizer sobre o Natal e foi aí que surgiu a ideia de imaginar o que certas pessoas adorariam ganhar de presente, ganhar de Papai Noel, não é assim que se diz?

Vamos lá para ver no que vai dar. Por exemplo, o que o Fernando Henrique pediria a Papai Noel? Fácil de imaginar, sua reeleição para outro mandato, claro. E Lula? Sem nenhuma dúvida, gostaria de ver em seu sapatinho, bem embrulhadinho em papel celofane, a faixa presidencial e uma miniatura do Palácio do Planalto. E o Fernando Collor? Uma sentença de absolvição do STF e o sonho de voltar a ser candidato a presidente. No sapatinho, debaixo da árvore de natal, uma miniatura da Casa da Dinda, com a cascata e o jardim tropical. E nós, brasileiros de todos os cantos deste país, queremos ganhar o penta na França e também pedir ao bom velhinho (gostaram?) que nos dê um técnico para a seleção mais simpático do que o Zagallo. Pelo amor de Deus, já não chegava a feiura do Parreira?

E para nós em Itabira? O que vamos pedir a Papai Noel? Nem preciso dizer. Queremos desprivatizar a Vale, queremos voltar a viver o sonho, quase irresponsável, de que aqui seria a terra da promissão, um paraíso intocável, cercado por suas montanhas de ferro. Mas o bom velhinho tem recebido outros pedidos muito interessantes daqui, de Itabira, de gente boa a importante. Infelizmente não estou autorizado a revelá-los. Apenas posso dizer que Papai Noel já recolheu umas trinta cartinhas assim: “Querido Papai Noel, quero ganhar de presente minha eleição para deputado em 1998!” Só que Papai Noel me confidenciou que só vai poder atender a dois e que o resto está é atrapalhando e muito. Feliz Natal, gente…

Um abraço e até a próxima.

cronica_semana_06#_blog

Estive relendo alguma coisa que escrevi há cerca de um mês atrás, mais ou menos, quando dizia que nós, itabiranos, mais uma vez ficaríamos a ver navios na política, não elegeríamos deputado nenhum. Dito e feito, aí está o resultado e nossos gloriosos candidatos se engalfinharam, se atropelaram e fim de papo, não deu para ninguém. E o que mais vocês queriam, hein? Ficou o consolo, se é que isto consola alguém, de ter havido uma certa resposta do eleitor em torno dos nomes do falado movimento de união por Itabira. Mas faltou, mesmo, foi voto. É verdade que o que deu de votos brancos e nulos daria para eleger quase dois deputados, o que, é bom dizer, aconteceu no país inteiro. Resposta do povo à bandalheira e sem-vergonhice dos seus “dignos” representantes. Em Itabira não foi diferente. Realmente, deputados e senadores estão por baixo, mas continuam mamando nas tetas gordas da república.

Este não é, decididamente, um país sério, nunca foi. Temos um dom estranho de tornar as coisas sérias, em pouco tempo, em tema de gozação. Será que é este o nosso jeito, de molecagem, da falada ginga brasileira, do malandro, do bicheiro, será? Só pode ser isto, quando se sabe que os infelizes, pobrezinhos, dos nossos deputados e senadores estão querendo dobrar os seus “míseros” salários, porque estão ganhando muito pouquinho, daí que têm de ganhar mais, em torno de R$ 12 mil, fora os trambiques, os favores, o uso indevido das gráficas do Senado e da Câmara, não é, Humberto Lucena? E ainda vem aquela múmia do Inocêncio de Oliveira tentar justificar o injustificável, dizendo que se não houver aumento os deputados não comparecem, não trabalham, ficam fazendo beicinho e não dá quorum.

Quem é que pode com um país deste? Não dá, não dá mesmo. Querem avacalhar com tudo, logo de saída. Acho o seguinte: se realmente eles aumentarem seus salários, o povo deveria marchar sobre Brasília e dar neles o maior pau. Aí, sim, eles tomariam vergonha e nem que fosse de medo iriam trabalhar. Só faço uma ressalva, é que existem uns poucos, pouquíssimos que são gente boa, bem intencionada, mas se perdem no meio da geleia geral. Já imaginei, algum tempo atrás, que vereador, deputado e senador não deveriam ter salário, aliás, qualquer mandatário eleito não deveria ter. Vocês iriam ver como seriam poucos e honestos os candidatos. Claro que não iriam morrer de fome para servir o país, teriam tudo pago pelo governo, enquanto exercessem o mandato, dentro de um padrão preestabelecido, sem direito de reclamar. Só iria quem topasse, já sabendo as regras do jogo, que não poderiam mudar.

Pura utopia, puro sonho. A realidade é bem outra, meus amigos. O que predomina é o político carreirista, que só pensa em se eleger para ficar numa boa, tipo Justo Veríssimo, a mais fiel imagem do político brasileiro, sem dúvida nenhuma. Acontece, entretanto, que o povo está ficando mais esperto e entendendo que há políticos e políticos. Já identifica os oportunistas, os infiéis, os espertinhos e sempre risonhos, aquele to tipo que fica sempre do lado que acha que vai vencer. Temos exemplos… Pau neles, até que desistam, o que, aliás, não é fácil.

Fim de noite, em outubro, a estas horas já não se vê mais as estrelas de Escorpião no céu escuro, que já tombaram para os lados do poente, desde cedo. Minha constelação, meu signo. A cidade, mais uma vez, parece alheia aos maus presságios que se anunciam, cada vez com mas intensidade. Nem assim seus filhos acordam. Drummond já dizia desse alheamento… A lua cheia e o cruzeiro iluminado do Pico do Amor faziam contraponto na paisagem noturna, impassíveis.

Fim de papo…

cronica_semana_05#_blog

Distante, o vento somente trazia os sons da madrugada. Leves sussurros, gemidos, palavras não ditas, apenas balbuciadas, ininteligíveis, compreensíveis apenas pela emoção. Longa, a noite termina sem uma confissão, desejos irrevelados, percebidos, sem uma palavra. Dispersam-se os parceiros, rompida a magia, sozinho na noite, frustrada a alegria apenas sonhada. Resistiria ao amanhã?

Janelas entreabertas, penumbra do entardecer, vultos, sombras que se movem por trás das venezianas. Formas diluídas na leve luz que se contrapõe à escuridão, agora já completa. A noite avança, rompido o tênue equilíbrio do entardecer, revelam-se vultos noturnos, esgalhados, folhas crepitam no solo ainda quente da tarde. Voa o espírito para distantes paragens, a busca inútil do infinito.

Longa, longa noite. Frias e distantes estrelas. Murmúrio leve da brisa tocando nuvens e pensamentos. A paixão resiste, aniquilado o ser diurno, o espaço imenso brilha em milhares de luzes, mundos, vias lácteas, para onde quer ir, para onde irá um dia. Momentos de pura magia, desaparece o corpo físico, puros sentimentos, voo solitário para dentro da noite sem fim.

Céu cinzento, a tarde caminha com a lentidão das horas vazias. O vento ligeiro desarruma as folhas das árvores recortadas contra o horizonte. Parecem vivas, balançando-se como se estivessem conversando. Nuvens densas e escuras caminham no céu, tocadas pelo vento, esbarram no recorte da montanha. Todas as coisas se tornam da mesma cor cinza da tarde, a noite não demora mais…