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Guardou, com muito carinho e com muito cuidado, a velha caneta Parker 51 em seu estojo. Antes de fechá-lo, ainda lançou um último olhar para a caneta e confirmou, para si mesmo, que estava muito conservada. A cor, cinza, já pelo uso, seu nome gravado no corpo da caneta, a tampa dourada que já não tinha o mesmo brilho. Fechou o estojo, com a emoção de quem está enterrando um ente querido.

Quantas lembranças, quantas recordações lhe vieram naquele momento. Lembrou-se do dia em que comprou a caneta, uma tarde fria e chuvosa em Belo Horizonte. Depois, de quando começou a usá-la, a maciez, a suavidade da escrita, caneta tinteiro, em tom azul pavão. A maneira como a caneta se amoldava à pressão de seus dedos, quase como se tivesse vida e pudesse sentir o comando dos dedos do dono. Sem dúvida nenhuma, havia uma interação entre ele e a caneta, que superava o simples e mecânico ato de escrever. Com ela, redigiu seus melhores trabalhos, suas mais brilhantes e premiadas peças.

Até que chegou um dia e ele teve o primeiro contato com um computador, objeto do qual jamais se aproximara e muito menos tocara. Era, por natureza, avesso às máquinas, jamais as usaria para uma atividade intelectual como a de escrever. Achava que o ato de criar não deveria, nunca, se manifestar através da coisa mecânica, por isto, nem usava máquina de escrever. Escrevia à mão. Como, perguntava, se poderia criar algo através de uma máquina?

Mas ao entrar em contato com o computador, o seu mundo virou de ponta cabeça. Fascínio imediato pela telinha, era um viciado em televisão, entrou pelos canais cósmicos da internet, dedilhou o teclado e se apaixonou pelo mouse. Vislumbrou a possibilidade de penetrar nos espaços galáticos, um sonho antigo e nunca revelado. Não fosse a necessidade de assinar, que ainda exige caneta, nem compraria outra. Comprou uma “bic” e adquiriu uma “ler” de computador, que está dando um trabalho danado.

Um abraço e até a próxima.